Cinema Nacional

A História da Eternidade | Camilo Cavalcante, 2014

Mesmo datado de 2014, Camilo Cavalcante em ‘A História da Eternidade’ retrata um sertão atemporal. A sua gente enraizada que segue calada, clamando desesperadamente por espaço e legitimidade. O longa foi vencedor de importantes prêmios, dentre eles, o Festival de Paulínia, sendo o grande destaque. 

A História da Eternidade nos aproxima da nossa essência, mesmo que em primeiro momento o cenário pareça um pouco distante, ou a fala arretada, o contexto nos fará mergulhar em nossos próprios anseios, sonhos e questões sociais. É sobre gente como a gente, particularmente sobre o recorte de três mulheres, de três gerações e a influência masculina em suas vidas. 

Mulheres vividas por três grandes atrizes. Das Dores (Zezita Matos), Querência (Marcélia Cartaxo) e Alfonsina (Débora Ingrid). Das Dores é uma avó a espera de seu neto que vem de São Paulo para ter com ela. Uma relação intrínseca, que levará a um desfecho discreto, porém, longe de ser fantasioso.

Querência é uma mulher viúva e solitária, cortejada diariamente em sua janela por Geraldo, um sanfoneiro que todos os dias lhe profere canções de amor, à espera que ela finalmente o aceite e deixe-o adentrar. 

E o belo relato de Alfonsina, um recorte particular dentro da trama, feito com tanto amor e carinho quanto possível. Sem dúvidas foi a história que mais me tocou, por conta de sua sensibilidade, o cuidado e leveza de se falar sobre assuntos tão densos e complexos. 

Alfonsina é a única mulher em uma família composta por homens. Um pai totalitário, rude e machista. Desacredita da beleza das palavras, da poesia ou em qualquer manifestação artística e social que não envolva sacrifícios braçais e recompensas financeiras. Em contrapartida, o seu tio Joo (Irandhir Santos) é um homem dócil, sonhador e romântico, um suspiro dentro de uma família tão dura consigo mesmos. 

Ela se espelha muito em seu tio e compartilha o seu modo de ver a vida. E mesmo com todas razões para a ver a vida ao contrário, possui dentro de si pequenos sonhos, que ao mesmo tempo são enormes. O maior deles é ver o mar, mas como se encontra água em abundância em terra seca?

É quando acontece uma das cenas mais belas, não somente em particular ao filme, mas uma das cenas mais lindas do cinema, eternizada complementarmente na memória e no coração. A imaginação é a melhor e maior coisa que existe dentro de nós, ela faz com que nossos sonhos floresçam para além do palpável e então não existem mais limitações. 

Os três enredos não se preocupam em seguir uma ordem cronológica ou fazer uma separação por história, tudo acontece no mesmo plano, sendo feita a divisão apenas por apresentação, desenrolar e encerramento.

Ao final, só posso dizer que é um filme que inspira paixão, desejo, sonho, incredibilidade, realidade. É retrato e manifestação de amor em todas as formas possíveis, mesmo diante daqueles que não sabem amar.

Por conta de toda a sua estética e importância dentro do Cinema Nacional, a História da Eternidade é um daqueles filmes que destoam dentro do emaranhado de comentários errôneos, que afirmam que o cinema brasileiro é de baixa qualidade e feito de roteiros vazios, uma vez que toda a afirmação está apenas se baseando em produções Globo Filme e em sua grande maioria, comédias de péssimo gosto estético. 

É uma afirmação que sempre reforço ao final das resenhas de filmes nacionais, porque mesmo batendo tanto nessa tecla, ainda se desvaloriza muito o cinema brasileiro e se cultua muito o cinema americano. Temos jóias raras por aqui e devemos não somente valoriza-las, mas incentivo-las e repasse-las. 

 

Trailer – A História da Eternidade

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