Domingo Deprê

Amor e solidão | The Lobster, 2015

The Lobster é um título estranhamente cheio de significado, em um filme que é classificado como futurista, mas o futuro está tão próximo como um piscar de olhos, que não nos damos conta e já fomos engolidos por tanto vazio e egocentrismo, explicito em um filme que diz demais sobre nós mesmos e nos arranca uma parte de humanidade ao seu final. Isso é, se ainda possuímos essa “parte”.

Yorgos Lanthimos faz um filme que não se preocupa com os floreios. Duro, cru e direto ele tratará de duas relações pessoais opostas e um tanto semelhantes: solteiros obrigados a se relacionarem romanticamente e solitários proibidos de se relacionarem.

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Logo percebemos que se trata de uma história de necessidades humanas, tanto necessidades básicas, quanto a necessidade de nos comprometermos emocionalmente. Se você está solteiro, é obrigado pelas leis da cidade a ficar 45 dias em um hotel com o intuito de encontrar o seu “par perfeito”. No qual todas as características, gostos e prazeres são equivalentes um ao outro, criando supostamente um relacionamento perfeito. Mas, na verdade, criasse uma farsa, pelo medo de estar só e ser transformado em um animal – destino daqueles que não conseguem encontrar alguém para se relacionar ao fim do prazo.

Aparentemente muito louco, mas não mais louco do que nós já vivemos, com exceção da transformação animal. A crítica é tão singela e marcante, que hoje, socialmente, também somos divididos: os normais (aqueles que estão envoltos em relacionamentos) e os anormais (aqueles que não estão em relacionamentos). Ainda habitamos o mesmo espaço, ainda. Mas somos julgados e são inúmeras as explicações que são dadas a nós “anormais”.

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É louco pensar que precisamos nos relacionamos a qualquer custo. Seja pelo medo de estar só, seja pelo fardo pesado que é o julgamento, seja por qualquer justificativa falha. Porque nada mais explica as nossas relações vazias. Estar com alguém parece ser tão descartável e passageiro, que a cada esquina encontra-se outro par. E disso nasce por conta do nosso destino predeterminado, no qual você deve nascer, crescer, casar, procriar e morrer.

Em The Lobster também há o outro lado rebelde, os excluídos socialmente. É quando David (Colin Farrell) resolve fugir do hotel e ir para floresta e apaixona ironicamente por Rachel Weisz. Os refugiados também possuem suas regras: todos são proibidos de se apaixonar e se relacionar.

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Uma sociedade preto no branco. Dois extremos, onde não há espaço para o equilíbrio. Tudo é exageradamente exposto, mas calmamente retratado. O diretor irá te guiar lentamente diante de ambas situações, criando um cenário em que você o absorva completamente.

É um filme tiro forte no peito em que você está próximo demais do atirador e aquilo te impacta de forma de que você não consegue reagir. Não consigo defini-lo de outra forma. As nossas relações são esse bang bang doido. Em que nos declaramos “modernos”, mas ainda temos medo da solidão, temos medo de morrermos sozinhos, medo da depressão, medo de não ser feliz a qualquer custo, medo de encontrar a felicidade em nós mesmos. Afinal, é muito mais fácil dividir o peso da infelicidade em dois.

Trailer The Lobster

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