Sessão Cinéfila

‘Azul é a cor mais quente’: Uma percepção distorcida que se inicia pela tradução do título

Todo sentimento e vestígio que envolve esse filme estão diretamente ligados, primeiramente, a tradução equivocada de seu título original para o português, perdendo toda a sua essência e partindo diretamente para o fator sexual. A dificuldade de desprendimento desse detalhe, fará com que todo o filme seja pautado puramente por um casal de homossexuais. E “A Vida de Adèle”ou “Azul é a Cor Mais Quente”, como preferir, é um filme muito além do que apenas sexo entre duas mulheres.

O título original ‘La Vie d’Adèle’  – A vida de Adele – já explicita exatamente o que iremos acompanhar ao longo dos seus quase 180 minutos. Acompanharemos a evolução de uma adolescente que está se descobrindo sexualmente e está se descobrindo enquanto ser humano e ainda tentando entender todas as questões morais e sociais que envolvem a passagem da adolescência para a vida adulta.

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Adèle (Adèle Exarchopoulos) descobre o amor de uma forma pura e singela, no andar de uma garota de cabelo azul (Léa Seydoux), um tanto exótica e ar maduro. Uma garota que exprime as expressões através de gestos, além das palavras. Cada olhar tem uma carga de significado tão forte, que te consome em certos momentos, te transportando por um paralelo hipnotizador.Os lábios que se comprimem junto ao outro de uma forma lentamente, nos fazendo sentirem cada expressão, não apenas sexual, mas sentimental que envolve o casal.

Todo esse rico universo de expressões e formas imagéticas, se resumem na mente da maioria das pessoas a uma cena de sexo de uma média de 15 minutos. E apenas isso. O que é completamente frustrante. Afirma-se novamente o quão a nossa sociedade AINDA é machista e “quadrada”; reforçado pelo fato de, ao menos não me recordo, uma única pessoa ter saído do cinema ou ter acompanhado um filme em casa e que tenha uma opinião formada sobre, baseando-se apenas por uma cena de sexo intensa entre um casal heterossexual. Percebe a diferença?

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Ideia reforçada através de mais um exemplo. O filme nacional estrelado por Wagner Moura‘Praia do Futuro’, que também possui as suas peculiaridades imagéticas, carregadas de sentimentalismo e discussões profundas sobre relacionamento, mas que é pautado como um filme que “apresenta fortes cenas de sexo entre dois homens” e que o mesmo devia ser proibido de ser exibido.

Eu particularmente amo ‘A Vida de Adèle’. Amo cada detalhe desse filme. Amo a forma poética que ele se mostra, o amor que ele comprime, as atitudes e caminhos que ele toma. A forma como ele soube explorar o melhor de Adèle Exarchopoulos, que na época tinha apenas 19 anos e soube ser tão intensa como uma atriz de muitos e muitos anos de experiência. Ela que inicialmente é uma garota dócil e frágil no início do filme e que evolui de uma forma absurda; Ao final, o que veremos, é uma mulher feita, convicta e cheia de propriedade em relação as suas atitudes e decisões. Amo como o filme evolui em suas descobertas.

A partir daí, você consegue ver o filme como um todo e não simplesmente um recorte de uma cena específica, e somente então poderá julgá-lo se é algo que te agrada ou não. Mas julgá-lo por algo tão específico, tão particular, creio que seja uma injustiça tamanha, que eu espero que você também não cometa. Então, fica aqui a dica cinéfila de um filme esplêndido.

 

 

Ficha Técnica – ‘Azul é a cor mais quente’

Gênero: Drama
Direção: Abdellatif Kechiche
Roteiro: Abdellatif Kechiche
Elenco: Adèle Exarchopoulos, Alma Jodorowsky, Aurélien Recoing, Benjamin Siksou, Catherine Salée, Fanny Maurin, Jérémie Laheurte, Léa Seydoux, Mona Walravens, Salim Kechiouche, Sandor Funtek
Produção: Genevieve Lemal
Fotografia: Sofian El Fani
Montador: Albertine Lastera, Camille Toubkis, Ghalia Lacroix, Jean-Marie Lengelle
Duração: 173 min.
Ano: 2013
País: França
Estreia: 06/12/2013 (Brasil)
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Quat’sous Films / Wild Bunch

 

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