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Chico: Artista Brasileiro, 2015 – Miguel Faria Jr

“Se eu pudesse voltar no tempo? Não. Não existe nostalgia alguma de tempo algum”

Miguel Faria Jr. é amigo íntimo de Chico Buarque há décadas, por conta disso vemos tanta liberdade e entrega em cena. Conseguimos ver um Chico com mais propriedade, fora dos palcos, dentro de sua intimidade no Leblon, falando sobre música, literatura, infância e amores.

Inside-Chico-Miguel-Faria

Passado e presente se cruzam através de fotos, vídeos e relatos. Tom, Vinicius, João Bosco, Caetano, Bethânia, relatam quem é Chico Buarque e a sua contribuição para a música. Tom Jobim o enaltece diversas vezes e fala
de sua facilidade com as palavras, que nascem de uma forma tão natural, que até mesmo ele fez questão de roubar para si alguns versos.
Ou nos deparamos como tudo começou nos tempos de 64, na parceria com Caetano e Edu Lobo. Os seus medos,
seus tempos de infância ao lado de seu severo pai, Sérgio Buarque de Holanda, o grande responsável pela iniciação de Chico com as letras, o que mais tarde o que faria um grande poeta, romântico e escritor.
Passamos pelos relatos de amor com Marieta Severo, nos emocionamos aos detalhes do primeiro encontro e vemos assim um ídolo com poucas armaduras. Até parece que conversamos com um amigo, em uma mesa de bar ao apreciar a bela vista carioca.

Mas o documentário não se resume apenas a descrições e relatos. As suas canções são interpretadas, brilhantemente aliás, por diversos cantores: Além do próprio Chico (“Sinhá” e “Paratodos”) participam do filme Ney Matogrosso (“As vitrines”), Moyseis Marques (“Mambembe”), Laila Garin (“Uma canção desnaturada”), Monica Salmaso (“Mar e lua”), Péricles (“Estação derradeira”),  Adriana Calcanhotto e Martnália (“Biscate”) e a portuguesa Carminho, numa surpreendente recriação de “Sabiá” e, em dueto com Milton Nascimento, em “Sobre todas
as coisas”.
Todas capazes de arrancar diversos suspiros emocionados.

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Ao longo do filme, vemos que Chico nada é tímido e releva que nunca o foi. Até mesmo ele possui seus traumas
de palco e por experiências vividas – quiséramos nós que fosse mais fácil e tivéssemos a oportunidade de vê-lo
mais vezes em palco. Sem dúvidas esse momento deve ser tão sublime e guardado eternamente no coração. Para
os esperançosos que ainda desejam contemplar esse momento, Chico revela que o seu processo criativo com o passar dos anos tornou-se mais vagaroso e que talvez venha algo por volta de 2020, por aí. E ainda em tons de incerteza.

Inside-Chico-01

Ainda releva ser pouco saudosista. Não possui essa saudade em relação a música ou a vida. Hoje não teríamos espaço, por exemplo, para a Bossa Nova, diz. Era uma ritmo musical completamente elitista, que ditava as regras e os enredos. Hoje temos uma variedade imensa e temos a liberdade de falar sobre qualquer assunto, o que durante a ditadura muita coisa foi perdida, muito relato teve que ser alterado. Os ritmos de hoje ensinam, encantam e podem até mesmo ser misturados para levar a algo novo e isso precisa ser melhor e mais explorado.

“Se eu pudesse voltar no tempo? Não. Não existe nostalgia alguma de tempo algum” diz.

Li muito sobre a preocupação de ser um documentário político, há diversos relatos sobre a ditadura e como influenciou a música e a vida de muitas pessoas. Como muitos artistas tiveram de deixar sua terra natal para viver em outro países por conta de proibições.  Mas em nenhum momento há a tomada de partido por esquerda ou direita. É um filme que se abstêm a esse fato. A proposta é falar de Chico e ter uma conversa íntima, um bate papo descontraído capaz de humanizar o mito que é Chico Buarque de Holanda.

 

 

 

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