Críticas

Manchester à Beira Mar (Manchester by the Sea)

Talvez eu tenha sido a única pessoa no mar imenso de Manchester – poeticamente falando – que não tenha se apaixonado por Manchester à Beira Mar e confesso que ainda estou tentando encontrar os porquês. É um filme sobre morte, sobre saber lidar com a melancolia constante de quem se acostuma, mas que vez ou outra, ela volta e retoma aquele sentimento forte no peito. Quem já viveu algo inesperado – que é a morte – mesmo quando ela é esperada, sabe o quão buraco fica no peito, de ver um corpo, que minutos atrás era tão cheio de vida, ali, imóvel e frio. Mas, também admito, que o filme possui as suas peculiaridades fantásticas, sem cair no piegas americano da dramatização e sabe lidar com algo natural, de forma tão natural.

Lee Chandler  (Casey Affleck) é um faz tudo, que trabalha em dois condomínios. Logo de inicio, temos contato com o seu lado impessoal, sua relação distante com as pessoas que precisa lidar no dia a dia e até mesmo com seu chefe. Entenderemos gradativamente as razões pelas quais Lee tornou-se essa pessoa mais áspera e a sua relação intimista, um ponto fora da curva, com seu irmão Joe Chandler (Kyle Chandler) que acaba de falecer e faz com que Lee tenha que retornar a Manchester para cuidar de todas as burocracias que envolvem a sua morte.

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A partir daqui mergulhamos em um intercalar de presente e passado. Flashbacks bem trabalhados e muitos cortes secos. Um diretor que trabalha bem os cortes secos se diferencia. Não nos atentamos muito a isso, mas é recuso fácil utilizado por muitos diretores, principalmente novatos, sem justificativa, sem lógica, que acaba causando um buraco no meio do filme e diversas partes soltas sem ligação. Aqui não, ele é completamente justificável e faz com que a trama ganhe o ritmo que o diretor dita.

Esses flashbacks farão com que conhecemos quem Lee era e quem Lee se tornou. É incomodo muitas vezes a melancolia profunda que o assola, mas ao mesmo tempo, você encara aquilo como uma adversidade, porque o personagem se desenrola de forma linear. Não há picos de alegria e nem picos de tristeza, não há exagero ou euforia, não há nada de ilusório. Assim também se dá a relação entre Lee e sobrinho Patrick (Lucas Hedges), que apresenta tristeza, mas que lida de forma natural de acordo com a sua idade e anseios. 

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No final percebemos que tudo se ajeita de uma forma ou de outra. E que aquele buraco sempre existirá, mas que ele pode ser tapado ora ou outra com algo bom em meio ao mar de coisas ruins e estranhas que nos assolam. Aliás, essa relação com o mar que o filme traz, é algo simbolicamente poético e belo. Como o mar, as ondas vem e leva todas as coisas que queremos esquecer. O mar acalma as nossas inquietações e percebemos ao olhar a sua plenitude que todo caos é acompanhado de uma calmaria inexplicável, que ora ou outra nos tomará.

 

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Trailer – Manchester à Beira Mar

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