Cinema Nacional

O Céu de Suely – Karim Aïnouz

O Céu de Suely é poesia traduzida em imagem. O início poderia ser o fim e o fim poderia ser o início. A ordem não faria diferença porque, de certa forma, assim o faz. Começa com uma imagem colorida, um retrato em uma polaroid que ficará para sempre na memória, mas apenas uma lembrança, um retrato sorri, brinca, se faz feliz frente as lentes de uma super 8. De repente a realidade toma forma, o colorido sai, dando início de fato, porque precisamos seguir em frente. 


Hermila
, interpretada pela própria Hermila Guedes, deixa SP após ter acabado o sonho eternizado da cidade grande e do grande amor. Ela aprendeu rápido que a grande metrópole paulista esmaga seus sonhos e aquele desejo louco de conquistar o mundo, precisa dar uma pausa, é preciso ser deixado para trás temporariamente, porque muito do se viu ali foi ilusão. Os estrangeiros imigrantes, em sua grande maioria nordestinos, aprendem rápido, que em SP a terra é fértil, mas que não se enriquece rápido, é mais fácil se empobrecer por dentro de desamor e assim o faz. A moça precisa voltar para o Ceará, com um mala cheia de sonhos e um filho nos braços. 


Ter de voltar a velha cidadezinha não é algo fácil, ainda mais de quem foi embora sozinha e volta acompanhada. Com muito peso nos braços e muito desejo ainda de fazer diferente. Por que ela está sempre partindo e nunca fixa em algum lugar, porque de certa forma o mundo não a pertence, ela não faz parte. Como se o mundo fosse o seu grande inimigo.

De encontro com a Tia e a Avó, elas tentam enquadrá-la novamente a sua rotina, básica. A tia trabalha como mototáxi e a avó costureira aposentada. Por ali tudo é calmaria, sem muitas novidades. O baile a noite, envolto de paqueras e gorós baratos. Assim a vida segue. Mas, Hermila precisa de mais. Precisa fugir dessa rotina massacrante, precisa dar uma outra vida ao seu filho, precisa levar com ela a sua tia e avó e para isso torna-se Suely.


Suely é outra pessoa, é a moça que rifa seu próprio corpo. Compre, pague e tenha uma noite de amor inesquecível com a linda menina de cabelos avermelhados e mechas douradas. Em primeiro momento é julgada, em outro rejeitada, por fim, é aceita. Por que quem a pode julgá-la? É errado ir em busca de uma vida melhor? Quem a pode julgar na atitude de fazer diferente em meio aqueles que já desistiram de lutar e apenas aceitam o previsível que virá? 

O fim se dá pela mesma forma que começou, não pela mesma cena e nem na mesma construção, mas diante do mesmo sentido de uma fotografia em polaroid eternizando um momento. Karim Aïnouz é um poeta e a sua sensibilidade é rara. Precisa ser valorizada. 

Trailer – O Céu de Suely

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