Cinema Nacional Resenhas

Que Horas Ela Volta?, 2015 – Anna Muylaert

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 “Como é que uma pessoa tira o gelo e bota a forminha vazia dentro do freezer?”

Brasileiro tem mania (feia diga-se de passagem) de valorizar “o estrangeiro” e pouco valorizar o nacional; na música, na dança, nos programas de TV e o cinema não é diferente. Compreensível, uma vez que o nosso cinema está tão caracterizado como Globo Filmes, com suas comédias mal elaboradas, tentando fazer com que você viva uma doce ilusão. Em contrapartida, ainda bem que existe o cinema independente, que tenta trazer a tela consciente, o problema à tona, discutir e quebrar tabus.

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Anna Muylaert se contrapôs ao óbvio e veio mostrar uma condição muito clara que acontece no nosso país e ainda é considerada como “normal”. De forma sutil e delicada ela denuncia a relação entre patrão e empregado e promove o sentimento de “isso daí não está certo e não precisa ser dessa forma”.

Que Horas Ela Volta? não disputa o Oscar 2016 como melhor filme estrangeiro, mas isso acabou tornando-se algo completamente irrelevante. Como próprio discurso da diretora, não foi um filme produzido para a disputa, mas o essencial era chegar até as pessoas e o objetivo foi alcançado com êxito. Além de ter tido suas glórias internacionais, vencedor no Festival de Sundance. As vitórias foram muitas.

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Val (Regina Casé) é uma Pernambucana que se muda para São Paulo em busca de proporcionar melhores condições de vida para a sua filha Jéssica (Camila Márdila) que ainda reside no Nordeste.
Val ao chegar em SP fixa-se em uma residência de classe média alta, na região do Morumbi e aceita a função de ser babá de Fabinho (Michel Joelsas) e desempenhar todos as outras funções de uma vida doméstica. Retrato de muitos brasileiros, principalmente nordestinos que migram de suas cidades natais em busca de melhores condições de vida em cidades grandes.

13 anos de prestação de serviços garantem a Val o título de “parte da família”. O que é posto à prova com a chegada de Jéssica a SP para prestar vestibular em uma Universidade pública. O cenário que Jéssica encontra aqui é completamente diferente do que esperava. A mãe reside no trabalho e ela se vê obrigada a dividir espaço com pessoas desconhecidas, o que acaba por gerar uma série de problemas a Val. E o título “da família” acaba por entrar em discussão e percebe-se que as coisas não são tão simples como parecem.

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A relação mostrada no filme é muito clara e real.  Ainda divide-se o “seu” e o “nosso”. Segregação entre patrão e empregado. Esse filme é um tapa na cara de muita gente que ainda se utiliza de argumentos batidos. Como li em muitas análises e discussões de que é um filme fora da realidade, que isso não existe no Brasil. Me pergunto o que faz um canal de grande circulação, uma mídia de massa deliberadamente ser a favor de tão discurso. Não existe esse cenário? Ou em qual mundo a pessoa que escreveu esse texto existe? provável que do lado do patrão, que deve ter uma relação são superficial como a do filme com os seus empregados.

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Você pode não ter gostado do filme ou dizer que o sotaque de Regina Casé é um tanto falso ou até mesmo como muitos boçais dizer sobre a incapacidade de uma mulher. Mas o que você não poderá dizer é que o cenário é surreal. É abusivo e tais relações precisam cada vez mais serem denunciadas. Que muitas Vals apareçam e levantem a voz
e entendam seus papéis: mulheres, dedicadas, que merecem respeito e tem que o direito como qualquer outro cidadão.

E em relação ao cinema ele nada mais é que uma ferramenta de mudança e conscientização e nada melhor que o Cinema Nacional para nos mostrar aquilo que esquecemos ou tememos em colocar na mesa e discutir. Precisamos valorizar mais o que é nosso. Estamos dando pequenos passos rumo a transformação, mas é preciso mais. É preciso ter orgulho do clichê “eu sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor” não somente por conta das cinco estrelas no peito da camisa da seleção, mas por tudo que somos, construímos e somos capazes.

 

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