Críticas

Resenha | Eu, Daniel Blake, 2016

Você sabe quando um filme atinge o seu objetivo, quando a sessão se encerra e todos os presentes na sala de cinema permanecem imutáveis em suas poltronas, incapazes de expressar um único ruído. Eu, Daniel Blake, é um completo soco no estômago de súplica por humanidade. Mostra que injustiças condicionadas a Governo e órgãos públicos e sociais não acontecem apenas em países emergentes.

A menos que estejamos mergulhados em uma bolha, sabemos que a Europa está imersa em uma intensa crise econômica desde meados do início dos anos 2000. Conflitos territoriais, divisões políticas, segregação da União Européia, programas de austeridade econômica, enfim, uma listagem gigante de problemas que deram campo para o cinema explorar ao longo dos anos. O que irá variar diante do assunto comum, é a visão política pessoal de cada diretor, que irá tratar o assunto com mais euforia ou mais cautela. É impossível falar do assunto sem ter uma inclinação política pessoal, assim acontece com o diretor Ken Loach, inclinado à esquerda e que diante da sua influência, irá mostrar uma visão extremamente humana. 

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Acompanharemos o personagem Daniel Blake, interpretado brilhantemente por Dave Johns. Ele consegue concentrar um personagem equilibrado e carismático. Após sofrer um ataque cardíaco o mesmo é afastado de sua principal atividade econômica, marcenaria, e irá passar por uma longo processo de solicitação para conseguir auxílio financeiro, enquanto não consegue liberação médica para voltar a exercer as suas atividades.Todo o processo de solicitação é envolto de uma intensa burocracia governamental. Burocracia para um cidadão que contribuiu a vida inteira com impostos e que agora não consegue ter retorno. Reforçado pela crise de desemprego que assola o Reino Unido nos últimos anos. Logo, não é uma divagação do diretor, como muito se ouviu, mas um cenário recorrente.

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A trama irá se desenvolver a partir desse primeiro drama de Blake, que nesse desenrolar do processo de solicitação conhece a jovem Katie (Hayley Squires). O encontro é uma casualidade pelo drama semelhante. Ela, mãe de duas crianças, tem que sair do Londres para Newcastle em busca de, também, auxilio governamental para sustentar as duas crianças. O seu drama acaba ainda sendo mais intenso. Ela que em diversas cenas vemos tirando comida de sua própria boca para dá-lo as crianças e a busca incessante em busca de trabalho como diarista e todas as suas tentativas frustradas. 

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Apesar dos fatos, a trama não se desenrola como um intenso “dramalhão”. Bastante sensato, ele é irá te comover, obviamente, e você irá se sentir sensibilizado, porque é algo tão cru e próximo, que muitas vezes nos pegamos pensando que poderia ser conosco ou alguém muito próximo a nós. E mais interessante ainda, é percebemos que a tão cultuada Europa pelos brasileiros também possuem suas crises e falhas. Que não é a perfeição que tanto espelhamos e que o nosso país não é a vitima de todas as calamidades entre os continentes. 

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É um filme que possui nuances e buracos, mas sinceramente, eu não me ative a eles. Creio que é um filme tão visceral naquilo que se propõe, que muitos erros acabam sendo deixados de lado para dar espaço para a sua grandiosidade. Ele irá te sensibilizar, sem dúvidas. Estamos falando de seres humanos que necessitam de um pouco mais de cuidado, principalmente idosos que, muitas vezes, possuem apenas uma alternativa de sobrevivência. É triste e, infelizmente, não fazemos ou não temos poderes suficientes para fazermos algo a respeito. 

 

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Trailer Eu, Daniel Blake

 

 

Ficha Técnica 

Título Original: Daniel Blake
Ano: 2016
Direção: Ken Loach
Estreia: 5 de Janeiro 2017 (Brasil)
Duração: 97 minutos
Gênero: Drama
País de Origem: França, Reino Unido, Irlanda do Norte

 

 

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