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Últimas Conversas, 2015 – Eduardo Coutinho

Difícil ver um filme de Coutinho que não encha os olhos. Depois de Jogo de Cena, o longa Últimas Conversas é um presente indiscutível em meio ao silêncio de tanto espaço que sobra em uma sala comportando uma cadeira e diversas histórias. A câmera fixa é o palco e Coutinho o mediador da conversa. Ele entre em sua alma e aquilo que tu expõe para fora, aquilo que a câmera capta, independente de ser a verdade verdadeira, porque isso não importa, é sempre a verdade momentânea, logo, torna-se a verdade sincera.

Coutinho tem um estilo muito particular que captar. Sempre uma câmera, um papo e pessoas distintas: crenças, raças e credos.  De onde vieram? não importa. Quem são? Muito menos. O importante é o que elas têm a dizer, a contribuir.

Ultimas-Conversas-Eduardo-Coutinho

Últimas Conversas é também o último filme de Eduardo Coutinho. Em alguns momentos até temos essa sensação estranha de despedida, mas pode ser que isso seja reflexo do conhecimento do futuro próximo. O tom da conversa assume um certo encerramento, mas nem por isso deixa de ser belo. Como citei, creio que seja o meu filme predito depois de Jogo de Cena. Por conta dele ser tão profundo e carismático e que te toma pelo braço e te faz viver aquilo como parte de si.

Os interlocutores escolhidos são adolescentes. Negros, brancos, descrentes, crentes, maduros, imaturos, sonhadores, desacreditados. Eles conversam sobre religião, fé, família, amor, afeto. Cada depoimento te toca de uma forma distinta. Tu encontra a malandragem da menina que deixou a tempos de acreditar na humanidade, que como ela diz, todo mundo é bobo e quem for esperto irá se sobressair. Mas também a garota que mesmo passando anos tendo o valor material materno e nunca o valor afetivo, jura retribuir no futuro, tudo em forma de agradecimento por conhecer o valor do amor, mesmo que isso tenha sido a vida inteira refletida em bens materiais. São tantas histórias, relatos, que é praticamente impossível sair dele ileso. Sem nenhum arranhão reflexivo. 

Eduardo-Coutinho

Eu queria que Coutinho ainda estive aqui e nos mostrasse mais, com sinceridade. E tu pode falar que é fácil substituir uma câmera, um cenário estático, alguns entrevistados e perguntas repetitivas. Mas não é. Ninguém conseguirá imitar ou alcançar a sensibilidade que ele tem atrás de uma câmera. Conseguir arrancar tanto de tão pouco.

E ainda bem que é brasileiro. Porque é um tesouro todo esse material. É um tesouro que precisa ser descoberto por todas as idades, crenças, raças e credos. Ali está a nossa maior representação, física, moral e espiritual. Ali está nós sem aquela roupagem mascarada diária, que fingimos ser outra pessoa, sem expor quem de fato somos, e mesmo que isso seja uma mentira, naquele momento aquilo tudo se torna verdade. 

 

Trailer – Últimas Conversas

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