Domingo Deprê Sessão Cinéfila

HER – você se apaixonaria por um sistema operacional?

Depois de uma noite regada a vinho e sentimentalismo, fui re-assistir HER. Foi a melhor e a pior escolha para o momento. Joaquin Phoenix como Theodore parece ser a materialização de um homem perfeito, mas não é. Comecei a reparar que os bons filmes, sempre deixam vestígios para vermos a verdade, basta estarmos dispostos a enxergar. 

Na cena em que a sua ex, Catherine, confessa que Theo a pressionou para tomar remédio antidepressivos por conta de seus altos e baixos e como isso a fazia tão mal, deixa isso claro. Talvez Theo o faz na tentativa de tê-la sempre em sua melhor forma emocional, sem saber lidar com o lado duro. Demonstra como ele não é perfeito e isso o torna tão real. 

 


Spike Jonze em todos seus filmes escancara as falhas, as dores e as belezas de homens solitários e sensíveis. Talvez seja isso que gosto tanto (no Jonze e em HER) o seu jeito perfeito-imperfeito. Além de HER ter uma paleta de cores que, pelo amor de deus, é belíssima. 

O problema dos apaixonados, é colocar todo o peso da expectativa no outro, querendo que ele seja sempre a melhor versão que conhecemos, longe de problemas, dores e que transpareça somente o lado bom. Por isso, talvez seja mais fácil se apaixonar por um sistema operacional. Talvez. 

 


Eu me fiz essa pergunta e a resposta foi SIM, eu me apaixonaria por um sistema operacional. Como não se apaixonar por “alguém” – e aqui bem frisado o alguém entre aspas – que te compreende, que te faz rir, que está disposto a conversar a qualquer hora. Acredite, queremos mais que um amante, queremos também um amigo e alguém para nos apoiarmos.

Alguém que conhece a sua melhor e pior versão e que ainda sim está lá no dia seguinte, sem se queixar ou abandoná-lo por escolha própria. Me parece quase uma perfeição. Quase.

 



Em todos os relacionamentos existem buracos. Em um relacionamento virtual, a falta do toque, do sentir o cheiro do corpo, de tocar o rosto, o cabelo, os lábios. Dar beijo de boa noite, de bom dia, manchando o lábio de batom, de vinho. Compartilhando o hálito de cigarro. Também são ausências. O toque é tão essencial como todos os fatores citados, assim como também é o sexo.

Em comparação, não defendemos tanto a  abolição da necessidade de beleza física? Se apaixonar por um sistema operacional parece a realização dessa teoria. Já que todos os relacionamentos são imperfeitos, esse me parece mais um dentre eles. Por que ser irreal? 

 

Se um amigo te dissesse “me apaixonei pela Siri” isso talvez soaria absurdo e talvez você fosse o taxasse de “loser carente”. Mas talvez não seja tão absurdo assim, depende da perspectiva. 

Não estou aqui para defender relacionamentos virtuais e nem para atacá-los. Estou apenas me abrindo para toda e qualquer possibilidade. No fim, ali na tela isso fica mais fácil. E talvez eu entenda Theodore e digo que até somos até um pouco parecidos. Não pautamos o sentimento em beleza. Erramos por sentir demais, pensar demais, e consequentemente, amar demais. Loucos por um pouco de compreensão.

Temos facilidade em encontrar beleza, e ela não precisa ser bela para todos. A sorte que ele, que pouco temos, é que todos ao seu redor parecer compreendê-lo. Deixando que ele sinta de forma livre, sem julgamentos. E isso me parece distópico demais. Até mesmo em um futuro. 

 



Retorno a pergunta que me fiz ao terminar de ver HER: você se apaixonaria por um sistema operacional? Se apaixonaria por um gesto, um sorriso, um andar, um balanço de cabelo ao vento, independente do físico? Alto demais, baixo demais, gordo demais, magro demais, feio, bonito, dente torto, olhos arregalados, sorriso frouxo, etc.

No fim, a pergunta mais importante é: você seria capaz de se apaixonar ignorando todas as imperfeições? Não precisa responder em voz alta, ou faça, como preferir.

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