Cinema Nacional

Temporada – Existe. Apesar de quase passar despercebido


Me deparei com Temporada e soube que ele tinha algo diferente a dizer. E disse. Logo me entusiasmei com seu cartaz e suas cores. Elas não eram vibrantes, mas também não eram pálidas. Elas existiam, apesar de quase passar despercebido. Quase. É intencional como você irá perceber ao acompanhar Juliana. Nossa protagonista quase não protagonista.


Juliana (Grace Passô) está de mudança. Vai deixar a cidade de Itaúna, rumo a uma nova vida em Contagem, Minas Gerais. Ela irá trabalhar no combate de endemias. Alertando de casa em casa, dia a dia, o risco de contagio à dengue. Apesar de pouco empolgante, é um novo começo para ela e o marido, que fica em Itaúna resolvendo pequenas pendências com a promessa de que logo a acompanhará, mas esse nunca chega.

É curioso e triste ao mesmo tempo ver a promessa do marido que nunca chega. Que desiste no meio do caminho, depois dela já ter dado muitos passos e não poder mais voltar atrás. O que resta então é adaptar-se. As novas condições climáticas. Quente e úmido. Aos novos colegas de trabalho: cômicos, curiosos, tão fodidos quanto ela, mas que parece levar a vida sem alarde.


E talvez não tenha muito mesmo a se alardar. A vida é como é. A gente fica tentando mudar as coisas o tempo todo ao invés de aceita-las. E nem tudo precisa ser uma batalha. Percebemos isso nas conversas despretensiosas, que revelam muito das personalidades dos personagens. Suas crenças, suas ideologias, seu modo de passar pela vida, a vida passar por eles. E assim o filme se passa, exatamente dessa forma.

É a vida comum sem romantização. O brasileiro sem luxo ou novidades constantes. É tão natural que até parece a gente ou a gente que conhece a gente. Ou gente da nossa família que quase é a gente quando visitamos parentes distantes ou próximos.


É um filme que quando lançou eu corri para vê-lo. Filme nacional é curta exibição por aqui. E em salas restritas. Com horários que favorecem os moradores boêmios da Av. Paulista que se dão o luxo de visitar cinemas à tarde (eu não estou os julgando, eu adoraria ser um de vocês). Isso enquanto disponibilizamos salas e mais salas e horários infinitos para exibirmos Avengers (nada contra. Eu também vi. Também gostei). Só acho que poderia haver mais conformidade.

É paradoxo pedir conformidade em um país de desconformidades. Mas não custa tentar. Tentemos. Até que pela sorte, acaso, ou simples felicidade, Temporada entra no catálogo da Netflix. Obrigada, Netflix.
O Cinema Nacional precisa ser visto. Não necessário ser gostado (um passo de cada vez), mas é preciso ser visto. Ele está sempre dizendo “existimos”.

Viva o Cinema Nacional. Sempre.




Temporada, 2010
Direção:
André Novais
Direção de Arte:
Diogo Hayashi
Elenco:
Grace Passô, Maria José Novais Oliveira, Sinara Teles, Russo Apr, Rejane Faria







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